Damos por encerrado o ciclo das emoções para entrar num campo onde a nossa espiritualidade é testada na prática: a nossa relação com a posse. No nosso Mapa Mental, já entendemos que o trabalho é o amor tornado visível, mas o que fazemos com os frutos desse trabalho?
Kahlil Gibran, em diálogo com as leis universais e a sabedoria de Lúcia Helena Galvão, ensina-nos que a verdadeira dádiva não é o que sobra, mas o que faz parte da nossa própria essência. Neste artigo, exploramos a Lei do Vazio, a Generosidade Solar e como a Constelação Familiar nos ajuda a equilibrar as trocas na vida.
1. A Ilusão da Posse: O Rio que não Guarda a Água
Gibran começa por desmistificar o medo da escassez. Muitas vezes, guardamos coisas e energias por medo do amanhã, mas esse medo é, em si, a própria sede.
“E o que é o medo da necessidade, senão a própria necessidade? Não é o pavor da sede, quando o vosso poço está cheio, a sede que é verdadeiramente insaciável?”
Na Astrologia, vivemos aqui o eixo Touro-Escorpião. Touro quer reter para se sentir seguro; Escorpião ensina-nos que tudo morre e se transforma, exigindo o desapego. Quando retemos algo que não usamos, bloqueamos o fluxo da vida. A natureza é puro movimento: o rio que para de correr torna-se um pântano. Dar é garantir que a água continue limpa e fresca.
2. Dar o que se É, não o que se Tem
Muitas pessoas acreditam que são generosas porque dão o que lhes sobra — a roupa velha, a comida que ia perder a validade, o troco que não faz falta. Mas Gibran é enfático:
“Dais apenas pouco quando dais do que possuís. É quando dais de vós próprios que dais verdadeiramente.”
A verdadeira caridade, na visão da Apometria e da Filosofia, é uma doação de ectoplasma e de tempo. Quando dás o teu ouvido a quem precisa, a tua presença a um filho, ou o teu conhecimento a um aluno, estás a dar a tua própria vida. Isso é o Aporte — o acréscimo de valor que deixas no mundo.
3. A Lei do Vazio e a Atração da Abundância
A Lúcia Helena Galvão recorda-nos frequentemente a Lei do Vazio. Para que o novo entre, o velho tem de sair. Se a tua mão está fechada a segurar uma moeda antiga, ela não está aberta para receber uma nova oportunidade.
- O Princípio do Caibalion: Tudo flui, para fora e para dentro. Se bloqueias a saída (o dar), automaticamente atrofias a entrada (o receber).
- O Vácuo Sistémico: Quando dás sem esperar retorno, crias um vácuo causal. O Universo, que não tolera o vazio, apressa-se a preencher esse espaço com algo de vibração equivalente.
4. O Equilíbrio entre Dar e Tomar (Visão Sistémica)
Na Constelação Familiar de Bert Hellinger, o equilíbrio entre o dar e o receber é uma das Ordens do Amor.
- Nas relações de casal, a troca deve ser equilibrada. Se um dá demais e o outro apenas recebe, o que recebe sente-se “pequeno” e acaba por ir embora.
- Em relação aos pais, nós não “recebemos”, nós “tomamos” a vida. Não há como retribuir o dom da vida aos pais; a única forma de equilibrar essa balança é passando a vida adiante — através de filhos, projetos ou serviço à humanidade.
5. A Intenção: Dar com Pesar ou com Alegria?
Gibran divide os doadores em categorias. Há os que dão por medo, os que dão para serem vistos e os que dão como as flores exalam perfume:
“Há os que dão e não conhecem a dor de dar, nem buscam a alegria, nem dão com a consciência da virtude; dão como, lá no vale, o mirto exala a sua fragrância no espaço.”
Se dás com pesar, a energia que acompanha o objeto é de escassez. Se dás com alegria, a energia é de abundância. A Psicologia explica que o ato de dar liberta dopamina e fortalece o sentido de pertença. Espiritualmente, quando dás com o coração, estás a reconhecer que és apenas um canal de uma fonte infinita. Tu não és o dono da riqueza, és o administrador.


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